Publicado por: bruno ribeiro | abril 10, 2010

Carta VIII – Rita Apoena

Todos os dias, eu almoço com um homem que abaixa o seu olhar sobre o prato, enquanto pedaços do seu pensamento vão se empilhando sobre a comida. E mesmo quando ele ergue os olhos e a elogia, alguma coisa se esvai pelas fendas do garfo. Depois, quase ao mesmo tempo, nós rasgamos um pedaço de pão com a ponta dos dedos, para umedecê-lo no molho e deslizar o miolo sobre o fundo do prato. Mas até quando o nosso olhar se encontra, numa mesma eucaristia, alguma coisa se perde junto aos farelos de pão — os farelos que eu recolho desta mesa, com todo cuidado, pra alimentar uns passarinhos no quintal.

Todas as noites, eu janto com um homem que assopra o silêncio na quentura da sopa, recolhendo das bordas o punhado mais frio. E até quando ele ergue os olhos e a elogia, alguma coisa evapora do fundo do prato. Depois, quase ao mesmo tempo, nós procuramos uma folha de guardanapo para limpar o sorriso no canto dos lábios, e quase sempre conseguimos, recolhendo das bordas o punhado mais frio. E até quando ele ergue os olhos e me elogia, alguma palavra se esmaga entre os dentes de trás…

Mas não é culpa dele. E nem é culpa minha. É a distância na mesa entre os farelos de pão. É o vento levando das mãos a farinha de trigo. É o grão que o tempo roubou da colheita, deixando secar sob o sol. São as folhas secas enfeitando a nossa mesa. Sou eu sentada num canto, e ele no outro da plantação. Sobretudo, são os campos dourados que me trazem lembranças antigas, lembranças de planetas, vulcões e de pássaros. Das quatro horas que nunca chegam quando amanhece a quarta-feira. Do invisível entre a minha cadeira e a tua. Da cor dos teus cabelos de trigo. E dos teus olhos tão claros. E foi por eles, que um dia abri as janelas do meu quarto, e essas cartas clandestinas comecei a te escrever.

Publicado por: bruno ribeiro | julho 26, 2008

cool kids

Publicado por: bruno ribeiro | julho 25, 2008

Diálogo Solitário Ouvido no Quarto de Expurgo

Publicado por: bruno ribeiro | julho 25, 2008

Trechos

E se é verdade que o tempo não volta, também deveria ser verdade que os amigos não se perdem…

In: Cartas

Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.

In: Ovelhas Negras – Lixo e Purpurina

Ele gostava tanto dessas palavras que começam com in – invisível, inviolável, incompreensível -, que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias.

In: Os Dragões Não Conhecem O Paraíso

Caio Fernando Abreu

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