Certas conversas são dolorosas e se locomovem em círculos como um predador. São as conversas que ficam dentro da cabeça, reverberam no crânio e fazem nós sem ponta. As unhas se gastam em busca da solução que está apenas ao alcance das espadas.
Os principais diálogos entre duas pessoas que se despedem são os que nunca aconteceram. Pois, justamente por não terem acontecido, é que as duas pessoas se despedem.
Já são conhecidas as perguntas e as respostas. Respostas não necessariamente certas pois, enfim, na fogueira, inquisidor e inquirido têm o mesmo cheiro de carne queimada.
A troca solitária de frases dispende uma energia similar à do homem que, ao tentar desprender um braço do piche, usa o outro, que também fica preso. Depois a perna, depois a outra. Até que fique completamente enredado e se afogue.
É a dízima periódica verbal: a divisão não é exata e o número imperfeito termina no infinito.
No diálogo abaixo, não há indização de quem profere a palavra. Apenas o uso rudimentar do travessão para indicar a troca de interlocutor.
O objetivo é confundir o leitor, de maneira que ele não saiba mais quem fala e quem responde, colocando-o em pé de igualdade com os próprios personagens que também ignoram isso.
As palavras medo e amor aparecem repetidamente. Considerando que nas imediações do amor não há medo e nas vizinhanças do medo inexiste o amor, concluo que este texto não é nem sobre amor nem sobre medo.
Talvez seja sobre aquela coisa, em que esses dois elementos contraditórios se intercalam em velocidade quase constante, chamada gente.
- Eu te vi aquele dia… linda… assoviando o tema da Pantera Cor de Rosa… tão linda, tão afinadinha… parecia uma criança… pensei que era por minha causa…
- É?
- Você está me fazendo sofrer…
- Eu não estou fazendo nada. Só sofremos se damos ao outro o poder de nos fazer sofrer. Eu sofri, mas quando consegui tirar o poder que você tinha sobre mim, parei.
- … eu não queria poder.
- Eu passei meses perguntando o que você tinha… Por que estava tão indiferente, tão estranho…
- E eu passei meses respondendo que não tinha nada. Eu não me sentia estranho como você me via.
- Mas eu sentia.
- Talvez eu tenha mudado e tenha deixado de dar as coisas que você gostava ou talvez tenha continuado a dar as mesmas coisas e você quisesse mais… sabe, eu não consigo entender como tem mulher que leva porrada, vê o homem chegar bêbado toda noite, traição e continua junto. O que eu fiz de tão terrível pra você me deixar…?
- Você deixou de me amar…
- Não. Não é verdade.
- Olha. Gostei da nossa história. Foi lindo. Mas acabou.
- Se gostou da história, escreva um livro.
-…
- Olha, eu confesso. Deixei sim de te amar. Só pode ser. Não tem outra explicação. Mas você também deixou de me amar.
- Talvez só tenha perdido o rumo. Talvez eu ainda ame você, mas as portas que eu tinha que abrir quem sabe tenham mudado de lugar e eu nunca mais as tenha encontrado. E talvez você ainda me ame, mas também tenha perdido os caminhos por onde chegar.
- Não é uma questão de caminho. É de querer andar para outro lado.
- Eu tenho a impressão de que sei quando nosso amor começou a acabar.
- Quando?
- Um dia, saímos da academia. Íamos tomar café. Eu me sentia ótimo depois de todo aquele exercício e comentei com você como era bom começar o dia daquele jeito, que era um excelente começo de dia. Eu estava contente por ter feito aquilo ao seu lado.
- E o que isso tem a ver?
- Não lembra? Eu lembro. Você disse que já havíamos tido manhãs melhores.
- Sim. Agora lembro.
- Então, naquela hora, naquele instante, eu ainda estava com um meio sorriso na cara quando eu comecei a pensar se nós dois juntos seríamos isso. Amanheceres cada vez menos melhores… e embora eu estivesse feliz com aquilo, com aquela manhã, pareceu-me que você já não estava, que queria mais… e fomos tomar café. E aquilo ficou martelando em mim e meu meio sorriso já era um pouco menos que isso.
- Foram só palavras. Não era algo para ter esse significado.
- Mas tiveram… e eu comecei a perceber… perceber não é o termo, pois acho que meus medos foram reflexos dos seus e os seus dos meus… passei a agir na defensiva. De tal forma que a preocupação com os amanheceres cada vez menos melhores ficaram maiores que os amanheceres um de cada vez, cada um de seu jeito, mas todos bons porque eu abria os olhos e você estava ali.
- Tudo o que eu queria naqueles dias era viver a seu lado, acordar a seu lado, dormir a seu lado, adormecer com a cabeça no seu peito… um relacionamento não é feito só de começos…
- Eu sei que os relacionamentos não são feitos só de começos. Que com o tempo as coisas mudam… mas também sei que até essas mudanças podem ser boas… elas são boas.
- Mas houve uma vez que eu também senti nosso amor começar a se acabar.
- Quando?
- Lembra uma vez que eu te liguei e avisando que poderíamos fazer algo especial naquela noite?
- Lembro.
- Então você me disse, quando perguntei o que poderia ser, que eu o surpreendesse.
- Sim. Lembro disso.
- Minha espinha gelou. Eu, que queria viver a vida inteirinha com você, de repente, teria que passar essa vida inteirinha surpreendendo você…
- Mas não era isso. Às vezes surpresas são coisas repetidas. Aquela roupa que eu adorava que você colocasse sempre seria uma surpresa. Aquele restaurante a que sempre íamos e pedíamos o mesmo prato sempre seria uma surpresa… como quando você sabe que, quando eu como demais, eu coloco o queixo em direção ao peito daquele jeito engraçado… sabe como?
- Sim… acho lindo saber esses detalhes… saber que história o outro vai começar a contar numa roda de amigos e com que ordem vai encadear os fatos… saber as reações da pessoa… é isso…
- Éramos iguais. Somos iguais. As nossas coisas em comum nos tornavam feitos um para o outro. Tínhamos… temos muitas semelhanças, mas eu não soube cuidar das diferenças.
-…
- Eu tive muito medo quando via o jeito que você se relacionava com seus pais. Você chegava dando voadoras quando contrariada. Aprendi que, para saber como você será tratado mais tarde pela pessoa que você ama, basta olhar para como ela trata as pessoas com quem convive há mais tempo… e eu vi aos poucos você começando a se relacionar daquele jeito comigo…
- Amamos como aprendemos a amar.
- Às vezes é preciso reaprender.
- Por várias vezes eu olhava pra você, então, e pensava se era assim que eu queria, para o resto da vida. As coisas todas que você fazia, as que eu gostava e as que eu não gostava. E eu lembro que, no começo, eu nem me importava com as coisas que eu não gostava em você. Pensava que poderia entendê-las.
- Mas às vezes não dá. A gente tem que entender, mas tem que cuidar para que esse entendimento não passe à tolerância e a tolerância à raiva e a raiva ao desprezo. Mas eu também não sei mexer com isso… acho que é medo de rejeição… não querer implicar com o outro por medo de rejeição.
-…
- Eu não sei mexer com isso. Não sei quando estou invadindo esses aspectos. Acho que nunca falei de nada que eu não gostava.
- É… você ouvia e não argumentava… dizia que ia ver e não fazia como eu tinha dito… me ignorava.
-… engraçado que eu fiz como naquele filme do Woody Allen que você trouxe aqui pra casa… lembra? Ele faz um escritor que aconselha um outro jovem escritor… no final, ele diz algo como: “As pessoas virão e dirão o que você deveria fazer com seu trabalho. Concorde com tudo. Mas depois de concordar, volte ao trabalho e faça do seu jeito, de acordo com as suas convicções”. Você até voltou a fita para eu ouvir de novo…
- Acho que eu não era qualquer pessoa.
- Mas justamente por não ser qualquer pessoa eu esperava que você entendesse que eu fazia as coisas de uma determinada maneira. No entanto, eu achei lindo quando você disse, sobre um texto meu, que eu estava me repetindo. Só alguém que conhecesse mesmo o que eu fazia iria perceber isso. Eu estava mesmo me repetindo e você teve coragem ao falar isso pra mim. Também adorava quando você corrigia algum erro ortográfico ou de digitação meu…
- Eu tinha medo de estar invadindo você.
- Nunca esteve. Nunca. Nunca. Lembro que você chorou porque achou certa vez que deixar cereais de que você gosta na minha casa era uma invasão… não era! Tudo o que eu queria era ter seus cereais todos os dias na minha casa… não sei o que aconteceu… eu disse isso aquele dia e você entendeu e ficou super feliz e eu me senti o cara mais legal do mundo.
- Você é…
- Me sinto um lixo agora… impossível você gostar de mim nesse instante, impossível até pra mim gostar de mim mesmo. Até pra qualquer um.
- Lembro quando às vezes olhava para você e pensava… nunca mais só… nunca mais só…
- Eu não consigo entender se fui eu que diminuí o que eu te entregava ou se, em algum momento foi você que aumentou suas expectativas e eu não consegui mais acompanhar. Queria pedir desculpa, quero pedir perdão… você tentou me ajudar, ajudar o que sentíamos um pelo outro… mas acho que já não havia nada a fazer… não sei. Eu fraquejei. Eu falei pra você que eu estava fraquejando, com medo. Você ouviu e se apavorou. Se eu pudesse, hoje ficaria calado… e para ganhar aqueles dois dias em que concluí que tudo o que queria era ficar com você, perdi você…
- Eu me afastei cada vez mais… o meu barco foi para longe e você não soube mais me buscar. Eu pensava, depois que conversamos sobre isso, que sim, você me queria. Mas o que eu sentia dizia outra coisa…
- Mas também naquele dia em que eu disse que queria ficar um pouco sozinho… você já estava me perguntando se eu estava bem… eu estava com medo. Depois eu te disse do quê.
- E é uma bobagem tão grande. Uma coisa tão pequena que nem acredito que desencadeou isso…
- Eu lembro que na tarde seguinte eu quis deixar claro se você queria ficar sozinho ou tinha pedido um tempo…
- Comecei a ficar com mais receios de ter feito besteira nessa hora… e fiz. Lembro de levar você até a casa de sua mãe e de como você estava dolorosamente silenciosa. Nesse instante, eu tinha que ter parado o carro. Encostado e dito: vem! Tudo o que eu quero é que você fique na minha casa para o resto dos dias e mesmo o que eu quero agora é isso… era o que eu sentia, mas não fiz.
- Mas não fez…
- Eu sei… mas não se pode viver pensando no que se deveria ter feito. Não quero viver assim, apesar de agora não conseguir fazer outra coisa… será que um dia você vai me perdoar?
- Será que um dia você vai se perdoar?
- Não sei… como saber?
-…
- Eu te vi aquele dia… linda assoviando o tema da Pantera Cor de Rosa… parecia uma criança… e tão afinadinha… pensei que era por mim.
Desconheço o autor. Se alguém souber, por favor.